Olhando para o Futuro

Existe uma diferença conceitual profunda entre o ODF (ISO 26300) e o MS Open XML. Apesar de ambos serem formatos para documentos eletrônicos textuais, o ODF preocupa-se com o futuro enquanto o Open XML preocupa-se com um legado de arquivos MS-Office.

Apesar de aparentemente nobre, o foco do Open XML não está na interoperabilidade com outros produtos mas sim na permanência da utilização dos recursos existentes hoje no MS-Office.

Se a especificação do Open XML for lida com atenção, pode-se verificar que muitos dos atributos contidos na especificação são, na realidade, blobs binários destinados a armazenar elementos dos formatos fechados da Microsoft sem a necessidade de conversão. Para piorar as coisas, a especificação destes blobs não é publicada, sendo apenas a parte XML "pura", documentada. O Open XML é, na verdade, um repositório XML para conteúdo fechado.

Outra coisa a ser levada em consideração é a postura da Microsoft com relação ao ODF. Ao se comparar o ODF com o Open XML, vemos que este último é extremamente mais complexo e de implementação difícil. Porque a Microsoft simplesmente não implementa o ODF? Ainda mais, já que é do interesse da Microsoft promover o Open XML, porque não faz ela mesma um plug-in ou um conversor de ODF para Open XML?

Acredito que a resposta a estas duas perguntas é simples: ao jogar para a concorrência a responsabilidade de criar os conversores, a Microsoft se assenta como a referência para o Open XML, tornando-se a escala contra a qual os projetos e concorrentes serão comparados. Não há uma implementação de referência do Open XML que seja livre e aberta.

Com a publicação do Open XML pela ECMA como um "padrão", a Microsoft usa um caminho alternativo para chegar à ISO com uma requisição formal de padronização. Se terá ou não sucesso, dependerá do quanto estará disposta a investir.

Já com relação à ABNT, temos uma situação curiosa. Apesar da ABNT estar montando um grupo espelho da SC34 da ISO/IEC/JTC1, as primeiras discussões mostraram haver uma dissociação da finalidade deste grupo espelho, o que apresenta a possibilidade do grupo brasileiro estabelecer um padrão que seja incompatível com o padrão ISO.

Há muito trabalho a ser feito, especialmente com relação à conscientização do que sejam padrões e seus objetivos. A proposta de padronização do Open XML é apenas mais um lance comercial na tentativa de manutenção da hegemonia de um produto de uma empresa.

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